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por Valcapelli, colunista ONNE
(Foto:
Ilustração)
São Paulo, setembro de 2010 - A atividade profissional tem se
tornado cada vez mais intensa. Geralmente o expediente não tem sido
suficiente para dar conta dos serviços, trabalha-se até mais tarde
ou leva serviço para casa. Cada vez mais o trabalho está entrando
nos lares e fazendo parte das famílias. Quem não leva serviço para
casa, carrega as preocupações e as angústias das ocorrências
vivenciadas durante o dia. Isso causa nervosismo e intolerância com
os entes queridos, comprometendo a harmonia nos lares.
O trabalho invade a mente das pessoas e reprime suas expressões
afetivas. Com isso, a vida pessoal tem sido sufocada pelos conteúdos
profissionais; praticamente não sobra espaço para as pessoas serem
pais, mães etc.
Mesmo estando ao lado dos seus entes queridos, as preocupações com o
trabalho deslocam as pessoas, tornando-as ausentes. Esses
distanciamentos emocionais provocam lacunas afetivas, que
comprometem os laços familiares, desestabilizando o núcleo da
família. As consequências desses comportamentos costumam ser
desastrosas. Os filhos crescem carentes ou revoltados, o
relacionamento entre o casal pode ser prejudicado etc.
Não raro as pessoas se relacionam mais com o serviço e com os
colegas de trabalho do que com os próprios entes queridos. Essa
relação enaltece a responsabilidade, reforça a maturidade, mas
enfraquece a ternura e docilidade. Nem sempre os componentes
afetivos são externados com quem são divididas as tarefas. As
próprias tensões do trabalho restringem a manifestação desses
componentes. Entre ser afetivo com os parceiros ou eficiente na
execução das tarefas, a eficiência possui elevado valor
profissional.
As pessoas desempenham suas tarefas com uma espécie de couraça que
as distanciam umas das outras. O acúmulo de tarefas torna-se uma
espécie de “blindagem relacional”; elas focalizam no serviço e não
se integram com aqueles que estão à sua volta. Geralmente as
relações no trabalho são superficiais e pouco fraternas. Os cargos
muitas vezes substituem os nomes; é o chefe, o subordinado e assim
sucessivamente. O Ser é sufocado pelas condições profissionais. O
trabalho forma uma espécie de engessamento afetivo, que se desloca
para a vida pessoal, as pessoas ficam distantes e até indiferentes
com seus entes queridos.
As trajetórias de vida nos centros urbanos têm basicamente o
seguinte curso: as pessoas amadurecem, constituem família e se
profissionalizam. Dedicam-se a produzir no trabalho, para “subir” na
carreira e melhorar o seu padrão de vida. Passam a viver em função
de gerir recursos de sobrevivência própria para a família. Excedem
seus limites para atender às exigências da empresa e manter a
estabilidade econômica.
Num certo momento da existência, faz-se necessário refletir acerca
do significado dessas condutas e o “preço” que se paga por viver
dessa forma: que marido ou esposa a pessoa se tornou; o afeto e o
carinho para com quem comunga dos mesmos ideais de vida, o amor
floresceu e ainda existe nos corações de quem estão juntos. As
responsabilidades e os compromissos do casal não podem sufocar o
amor que um sente pelo outro.
Por outro lado: que pai ou mãe a pessoa tem sido? Têm preservado o
espírito de comunhão com os seus filhos; ou as responsabilidades com
a educação reprimiram o carinho, gerando frequentes conflitos nos
relacionamentos.
A educação dos filhos se dá em meio a esses emaranhados
profissionais. Tão importante quanto os ensinamentos é o sentimento
manifestado cotidianamente. A humanização dos profissionais
proporciona mais afeto com os entes queridos, evitando carências e
revoltas dentro de casa.
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